Mais uma vez sobre Game of Thrones

Posted by | agosto 09, 2017 | Filmes | One Comment

Não entendo cristãos assistindo Game of Thrones. Foi o que eu disse há duas semanas. E milhões de blogs e comentários do Facebook depois, ainda não entendo.

Isso parece uma questão suficientemente importante – não a série em si, mas o princípio maior em jogo – que eu pensei que um post de acompanhamento poderia ser útil. Deixe-me colocar uma série de críticas comuns e depois terminar com um ponto relevante.

1. Você nem viu o show! É verdade, mas ninguém tentou refutar que Game of Thrones está cheio de cenas explícitas de sexo. Os pontos mais importantes não estão em disputa.

2. Não gostou? Então não assista! Esse seria um bom ponto se o argumento apenas dissesse respeito ao gosto e preferência. Mas o que você diria se seu filho usasse essa linha em defesa de sua pornografia?

3. A Bíblia está cheia de sexo e violência. Esta é uma retaliação popular, embora dificilmente persuasiva. Ninguém está argumentando que ler sobre o pecado, ou mesmo, em todos os casos, observar o pecado, é necessariamente pecaminoso. Mas há um mundo de diferença entre uma descrição concisa do pecado (Davi deitou-se com Bateseba), um poema carregado de metáfora sobre o amor romântico (Cantares), ou um capítulo sobre a feiura do adultério espiritual (Ezequiel 16) e observar duas pessoas nuas fingirem fazer sexo. Há uma razão pela qual a Bíblia fala dos desejos dos olhos. A pele de Hollywood e o sexo de Hollywood devem despertar. Esse é o objetivo. Isso faz parte da atração. Em contraste, a Bíblia nunca visa a excitação profana – exatamente o oposto. O livro sexual mais explícito na Bíblia celebra os prazeres do amor casado com linguagem metafórica que é projetada para não encorajar o voyeurismo (desordem sexual que consiste na observação de uma pessoa no ato de se despir, nua ou realizando atos sexuais), mas para apreciar a beleza do que Deus criou para um homem e uma mulher.

4. As cenas de sexo e nudez não fazem diferença pra mim. Sem dúvida, as pessoas estão conectadas de maneiras diferentes, mas eu me pergunto se as pessoas que dizem isso se conhecem tão bem como pensam. E se considerar o que Deus proibiu não tem efeito sobre nós, isso não é um bom sinal.

5. Minha consciência não é incomodada. A consciência pode falhar (Hb 10:22). Podemos não sentir convicção do pecado (1 Tm. 4:2). Deus cobriu Adão e a nudez de Eva (Gênesis 3:21). Jó fez uma aliança com os olhos dele (Jó 31:1). E os cristãos são ordenados a se vestir modestamente (1 Pedro 3:3-4). Cenas de sexo devem nos incomodar.

6. Pare de julgar e de se envergonhar! O julgamento é um espírito de ser excessivamente crítico. Avaliar moralmente é o que os cristãos fazem o tempo todo, como argumentar que um programa de televisão não é apropriado ou que uma postagem de blog é julgadora.

7. Fecho meus olhos durante as partes ruins. Melhor do que nada, suponho. Mas o quão confiável é realmente apertar os olhos e espiar para ver quando o material ruim acabou? E quão importante é assistir a HBO que precisamos fazer essas coisas pra assistir a série? Alguém mencionou que eles usam VidAngel* para cortar as partes ruins. Essa é uma opção melhor.

8. A maioria dos shows tem elementos bons e ruins. A história e a arte superam essas cenas ruins. Mas todos concordam (espero) que alguns elementos são tão ruins que as coisas boas não valem a pena. É tipo ler a Playboy por causa dos artigos. Ou ver a Sports Illustrated swimsuit para desfrutar das belas praias. Garanto, Game of Thrones é uma obra de arte mais impressionante (pelo que escutei) do que essas tentativas flagrantes de estimulação sexual. Mas, novamente, pelo que eu ouvi, as cenas de sexo em Game of Thrones também são bastante flagrantes.

9. Vejo a série para engajar meus colegas de trabalho com o evangelho. Estou disposto a apostar que o número de incrédulos que vêm a Cristo através da conversa sobre Game of Thrones seja bastante baixo. Talvez possamos chegar ao evangelho mais rapidamente, explicando gentilmente por que não assistimos a série.

10. Não temos coisas mais importantes com que nos preocupar? De todos os maus argumentos das mídias sociais, a tentativa de se desculpar de mudar seu comportamento pintando seu oponente como hipócrita é uma das piores. Há sempre mil outras questões importantes que podemos abordar. Mas, novamente, também há mil outras coisas importantes que poderíamos fazer em vez de assistir a cenas explícitas de sexo na televisão.

O coração de tudo isso

O problema com estas refutações é que a maioria delas faz uma suposição implícita; isto é, que a imersão no entretenimento sensual é de alguma forma uma área cinzenta da liberdade cristã. Não é.

O que leva ao meu único ponto relevante: não encontrei um único argumento convincente para a legitimidade dos cristãos que assistem cenas explícitas de sexo.

De Adão e Eva lutando pelas folhas da figueira (Gênesis 3:10), para a desonrosa nudez de Noé (Gênesis 9:21), para as nádegas embaraçosamente expostas dos homens de Davi (2 Sm 10:4), a Bíblia sabe que nós habitamos um mundo caído no qual certos aspectos de nossa humanidade estão destinados a ficar escondidos. Na verdade, isso é precisamente o que Paulo presume quando fala de “nossos membros menos honrosos”, que devem ser “honrados muito mais” (1 Coríntios 12:23). Há uma razão pela qual mamãe os chamou de partes particulares. Fora do casamento, não queremos mostrar-lhes, e não queremos vê-los.

Alguém realmente acha que o apóstolo Paulo (ou qualquer outro apóstolo, ou Jesus) teria ficado bem com a sensualidade que prevalece em Game of Thrones (e em muito do nosso entretenimento)? Não estamos falando sobre estátuas de mármore ou um documentário do Holocausto ou um médico que examina um paciente. Estamos falando de duas pessoas nuas fazendo em nossa frente o que as pessoas nuas fazem juntas. Retire o meio da televisão. Você entraria em uma sala privada e olharia através de um buraco para ver isso? Alguém pensaria que esse é o tipo de coisa pelo qual podemos agradecer? Ou o tipo de coisa que os cristãos maduros fazem?

Se há cristãos sérios que leem esse blog que realmente se sentem bem com a visão de nudez e sexo, eu humildemente te desafio a tirar uma semana e orar todos os dias, perguntando a Deus se você está ouvindo o Espírito e lendo a palavra corretamente sobre este assunto. Melhor ainda, tire um mês para orar, e durante esse mês faça uma desintoxicação de qualquer coisa que possa ser interpretada como sexualmente explícita ou provocativa. Você pode ver com novos olhos o que você está com muita vontade de ver no momento. Você pode até perceber que tem havido uma firme convicção de pecado que você tem deixado de lado como nada além de bagagem religiosa. E ao confrontar nossa abordagem casual ao pecado sexual, pode ser que você esteja perdendo a graça, o perdão e a pureza do coração que é bem-aventurada porque verá a Deus (Mateus 5:8).

Na ocasião, me deparei com alguns filmes com classificação de 13 anos que eu costumava assistir quando adolescente (como a série Naked Gun). Estou consternado com as coisas que não alteravam minha consciência, mas alteram agora. Estamos tão inundados de sensualidade que muitos cristãos não sabem o quão comprometidos se tornaram. Eu não estou em uma cruzada para banir um programa de TV em particular. A série em si não é o ponto. Mas enquanto eu ainda for considerado um pouco “jovem” e “atual”, eu quero fazer tudo o que puder para tocar o sino da santidade e soar o alarme contra todas as altas esferas da sociedade que nem reconhecemos. Somente em uma cultura hiper-sexual, saturada de pornografia, como a nossa, podemos pensar que as cenas sexuais gráficas não são grande coisa, ou de alguma forma compensadas por um roteiro brilhante. Não consigo imaginar como alguém se aproximando do Deus da Bíblia quer ver mais sexo e nudez, ou que alguém ache que séries como Game of Thrones seja uma benção séria para se ver e saborear Cristo. Nós nos tornamos o que vemos. Então, cuidado olhinho o que vê.

*used with permission from The Gospel Coalition.
Este post é uma tradução de um artigo de Kevin DeYoung, publicado originalmente no blog The Gospel Coalition, traduzido e publicado com permissão do autor. O artigo original pode ser encontrado no link: One More Time on Game of Thrones
Kevin DeYoung é o pastor sênior da Christ Covenant Church em Matthews, Carolina do Norte. Ele é presidente do conselho do The Gospel Coalition, professor assistente de teologia sistemática no Reformed Theological Seminary (Charlotte) e candidato a doutorado na Universidade de Leicester. Kevin e sua esposa, Trisha, têm sete filhos. Você pode segui-lo no Twitter.

 
 

* Traduzido por Aline Brandão
* Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, link do blog INCONFORMADOS, tradutor, blog original, não altere o conteúdo e não utilize para fins comerciais.

* Créditos da imagem

Posts Relacionados

About Inconformados

One Comment

Leave a Reply

Your email address will not be published.