Disciplina eclesiástica – Parte 3

Posted by | novembro 28, 2017 | Reflexão | No Comments

Na última oportunidade vimos através das Escrituras como o pecador penitente deve ser tratado pelo povo de Deus após a confissão do pecado, arrependimento e restauração – da mesma forma que Cristo trata seu povo, recebendo de braços abertos como o filho pródigo foi recebido (Lc 15:11-32). Mas como as Escrituras nos ordenam lidar com aqueles que gozavam das bênçãos de um filho de Deus, mas que, irredutíveis em seus pecados, deram as costas para o evangelho de Cristo? É exatamente sobre isso que trataremos hoje.

Na época de escola tive um amigo que se dizia cristão. Ele não enxergava as Escrituras pela ótica reformada e por isso tinha uma visão muito distorcida do evangelho e de Cristo. Sempre que tinha oportunidade conversava com ele e dava bons materiais para leitura. Alguns anos se passaram e enquanto eu estava estudando em São Paulo recebi uma curta mensagem dele pelo celular: “acho que virei calvinista”. Na mesma hora liguei pra esse amigo e ficamos horas conversando sobre suas descobertas a respeito das verdades das Escrituras, como a vida dele tinha mudado em tão pouco tempo e sobre a necessidade dele de procurar uma nova igreja pra congregar. Quando passei um final de semana no Rio de Janeiro o levei à minha igreja para que ele conhecesse uma igreja presbiteriana reformada. Lembro que ficou deslumbrado. Impedido pelos pais e pela falta de dinheiro de viajar todos os domingos a Niterói, onde minha igreja se localizava na época, ele foi obrigado a continuar em sua igreja. Sempre compartilhava comigo as angústias de não ouvir uma pregação expositiva e bíblica, de não ter irmãos próximos para o ajudar e das dificuldades consequentes.

Meses se passaram e na correria do dia a dia o contato ficou menos frequente até que passamos alguns meses sem nos falar. Um dia vi uma postagem bastante imoral em seu perfil em uma rede social e fui confrontá-lo. Ele vizualizou minhas mensagens e não as respondeu. De repente estas postagens ficaram mais frequentes e como consequência, as minhas mensagens a ele também. Até que depois de muito insistir por uma resposta ele me disse: “Davi, larguei o evangelho. Sou católico romano.” Na mesma hora liguei pra ele e o adverti, quase que em lágrimas, ao telefone. Ele, obstinado, não quis mais me ouvir e nem me responder. Além de tudo isso, uma das coisas que mais me chateou em toda essa história é que nosso grupo de amigos composto por cristãos (inclusive uma irmã da Igreja Presbiteriana) o tratava como se nada tivesse acontecido. Muito pelo contrário! Queriam saber mais da “nova fase”. O que fazer diante de uma situação como essa? Como agir como cristãos?

João Calvino comenta a respeito deste processo e, pautado nas Escrituras, ele faz uma declaração certeira de como as coisas devem acontecer: “Se alguém rejeita obstinadamente estas advertências, ou perseverando no mal, dá mostras de que as despreza; então, conforme o ensinamento de Cristo, deve ser conduzido, depois da segunda admoestação, ao tribunal da igreja para ser advertido mais severamente pela autoridade pública a fim de que se submeta à igreja e a obediência. Mas se mesmo assim não se conseguir nenhum resultado de forma que o pecador persevera na sua maldade, então, pelo fato de desprezar a igreja, deve ser afastado da comunhão dos fiéis.”

Este afastamento a que Calvino se refere na verdade diz respeito a um mandamento bíblico a todos os santos com relação àquele que se rebelou contra a igreja e contra Cristo. Sendo o excomungado “entregue a Satanás” (1Co 5:5) Paulo nos ordena no verso 9: “não vos associeis com os impuros.“. No próprio texto Paulo explica que se refere exatamente a estes rebeldes que se dizem cristãos. No versículo 11 ele insiste: “com esses nem sequer comais“.

João Calvino acrescenta: “Para que ninguém menospreze a sentença da igreja , ou tenha por desprezível o fato de ser condenado pelo juízo dos fieis, o Senhor declarou que isso nada mais é do que a cominação de sua própria sentença, e que ficará ratificado no céu o que for decidido na terra (Mt 16:19; 18:18; Jo 20:23)”

Ao comentar o texto de Mateus 5, Mathew Henry declara: “Os cristão devem evitar qualquer convivência com eles. Negar sua companhia e evitá-los até que corrijam seu caminhos e atitudes.”

Certamente o sofrimento e a tristeza encherá o coração do povo de Deus ao ver um irmão se afastar de Cristo, mas, confiantes de que Ele sabe o que é melhor para nós, devemos descansar em seus mandamentos procurando cumpri-los sem esquecer que essa separação tem alguns objetivos:

O peso do pecado

A alegria genuína reina no meio dos verdadeiros filhos de Deus (Sl 122:1; Sl 16:3). Não só essa separação, mas o peso de alimentar o pecado trará consequências para o obstinado (Sl 32-3-4; Lc15:15-16) que podem trazê-lo de volta. Ou mesmo que não o traga de volta, ele se afundará ainda mais em seus pecados. E certamente o Senhor Deus também será glorificado nestas situações porque sua justiça será executada.

A pureza da igreja

O Senhor Jesus adorna e prepara a sua Igreja purificando-a (Ef 5:26) para o grande Dia do Senhor. Toda árvore que não produz bons frutos deve ser cortada e lançada ao fogo (Mt 7:19).

“Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Lançai fora o velho fermento.” 1 Co 5:6-7

Ao expulsar os impenitentes do meio do seu povo, Cristo quer fazer de sua igreja santa e sem defeito. Sem mácula, nem ruga.

Salvação do dia do Senhor

O Senhor Deus ama toda a sua criação e de fato quer salvar o homem, e não que este pereça eternamente. Por isso oferece a ele insistentemente o Evangelho: se o cristão rejeita a pregação, rejeita a disciplina da igreja, pode ser que a distância não apenas dos irmãos, mas de todos estes benefícios que são os meios de graça, o desperte deste sono mortal.

“…entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus.” 1 Co 5:5

Precisamos perceber que a separação entre o povo de Deus e o pecador contumaz é necessária justamente porque é um mandamento divinamente estabelecido e não pode ser deixado de lado para a pureza da igreja, para o arrependimento do pecador, para o cumprimento dos propósitos do Pai e para sua glória.

Acabamos aqui esta breve e superficial reflexão a respeito da disciplina eclesiástica. Não deixemos de orar incessantemente pela ação do Espírito Santo em nós e em nossos irmãos na pregação e no processo de disciplina. Oremos por corações submissos aos líderes da igreja, aos mandamentos divinos e por sabedoria no meio de Seu povo para que os seus sejam disciplinados para aproveitamento a fim de serem participantes da santidade de Cristo (Hb 12:10).

“Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus; porque é rico em perdoar.”
Is 55:6-7

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About Davi Quaresma

22 anos, solteiro, estuda Ciências Contábeis na Universidade Presbiteriana Mackenzie – RJ é atualmente congrega na Igreja Presbiteriana de Ponta d’Areia em Niterói – RJ, onde seu pai é pastor.

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