Disciplina Eclesiástica – Parte 2

Posted by | novembro 28, 2017 | Reflexão | No Comments

Irmãos arrependidos

No primeiro artigo, falamos brevemente sobre a base bíblica para a Disciplina Eclesiástica. Para qualquer cristão verdadeiro envolvido neste processo, a disciplina é algo doloroso. Seja para os presbíteros, seja para os ofensores e, se for o caso, para os ofendidos. Como vimos também rapidamente no artigo anterior, um dos propósitos da disciplina é o arrependimento do verdadeiro cristão e a restauração deste. Vemos em diversas passagens das Escrituras que o Senhor Deus nos castiga porque nos ama como filhos seus (Pv 3:11-12; Hb 12:8), diferentemente dos incrédulos que sem repreensão caminham a passos largos à perdição eterna (Pv 5:22-23). Este é um processo necessário e Divinamente instituído, por isso não podemos ignorá-lo apenas por ser penoso. Uma coisa as Escrituras nos garantem: elas trarão resultados para o verdadeiro filho de Deus fazendo dele participante de Sua santidade (Hb 12:10).

Não é à toa que somos chamados filhos de Deus e Ele, o Todo-Poderoso, nosso Pai. Assim como a disciplina física dos pais sobre os filhos é um meio eficaz para mortificação do pecado dos filhos da aliança, a disciplina eclesiástica também busca mortificar o coração pecaminoso dos filhos do Pai Celeste. O objetivo em ambos os casos revela, apesar das dores que este processo envolve, o caráter gracioso do Senhor Deus: livrar a alma do transgressor do inferno (Pv 23:14; I Co 5:5).

Talvez não saiamos por aí dizendo isso, mas muitas vezes temos a ideia de que crentes são impecáveis. Pensar assim é um perigo em todos os sentidos: talvez oraremos menos por certos irmãos que cremos ser santos demais para praticarem alguns pecados; esse pensamento nos faz ignorar a natureza pecaminosa contida no homem, mesmo que regenerado. Pode nos fazer ignorar a ação graciosa de Deus na vida daquela pessoa crendo no fundo que os méritos da santidade de vida são do homem e não de Cristo e seu Espírito, etc. Por isso, precisamos ser lembrados a todo tempo que nosso coração e o de nossos irmãos é desesperadamente corrupto (Jr 17:9), que bebe a iniquidade como água (Jó 15:16) e que a salvação é dom de Deus (Ef 2:8).

Se por um lado devemos lamentar o fato de haver a necessidade de disciplina no meio do povo de Deus, devemos ao mesmo tempo ser gratos a Ele, pois mostra seu desejo misericordioso de trazer os seus para perto e regenerá-los; mesmo quando seus pecados estão escondidos no coração, o Senhor amorosamente usa meios para que estes pecados sejam revelados e assim tratados (I Sm 16.7; Mc 7.21-23; Mt 7.17).

Por ser a disciplina algo raro nos dias de hoje, as pessoas sequer sabem lidar com esta situação. Como devemos enxergar aqueles irmãos que caíram, mas arrependidos, estão dispostos a restabelecer as mãos descaídas e os joelhos trôegos fazendo caminhos retos para se curarem completamente do pecado (Hb 12:12-13)?

Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós; basta-lhe a punição pela maioria. De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza. Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor. E foi por isso também que vos escrevi, para ter prova de que, em tudo, sois obedientes. A quem perdoais alguma coisa, também eu perdoo; porque, de fato, o que tenho perdoado (se alguma coisa tenho perdoado), por causa de vós o fiz na presença de Cristo; para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios.” II Co 2:5-11

Este caso é a continuação de 1 Coríntios 5 do irmão que praticava incesto (v.1). Agora, já tendo este irmão sido submetido ao processo de disciplina, confrontado e arrependido, o apóstolo Paulo declara ter sido o processo suficiente; o efeito desejado foi alcançado e o homem, humilhado – como é importante crermos que os meios que o Senhor estabeleceu serão eficientes para que Sua vontade seja feita. Paulo direciona a igreja de Corinto a restaurá-lo à comunhão dos santos, perdoando-o, confortando-o e mostrando por ele amor (v.7), não permitindo que este seja consumido por excessiva tristeza – além da tristeza por ter desobedecido ao Senhor e agredido Sua noiva, a igreja, certamente a rejeição dos irmãos é um peso insuportável para o pecador arrependido. Matthew Henry, comentando a passagem, diz que é dever de todo cristão perdoar o penitente, e que para estes o conforto vem não apenas com o perdão de Deus, mas também com a reconciliação dos laços entre os irmãos. Ele afirma também que a atitude amorosa da igreja para com o arrependido confirma a ideia de que a repreensão e censura foram motivadas por amor ao irmão, ódio e repulsa ao pecado e obediência a Deus.

O próprio Senhor perdoa o pecador e promete: um coração abatido e contrito ele JAMAIS desprezará (Sl 51:17)! Todos nós estávamos perdidos e andávamos como ovelhas desgarradas (Is 53:6). Por quem é composta a Sua noiva se não por pecadores miseráveis merecedores de toda a eterna ira do Senhor? Mas Ele perdoou a cada um de nós na cruz de Cristo. Por que agiríamos diferentemente do que Ele fez e nos ordena fazer?

Outro texto maravilhoso é o da parábola do filho pródigo (Lc 15:11-24). Mathew Henry declara ser esta passagem uma amostra do quanto o Senhor se deleita na conversão dos homens e em perdoa-los. Este trecho das Escrituras é uma linda alusão e lembrança da graça do Deus vivo que recebe os piores dos pecadores em seus braços, faz deles seus filhos e chama-os de santos em Cristo Jesus. Os versos de 22 a 24 certamente nos servem de encorajamento mostrando-nos como o Senhor nos trata ao sermos por Ele acolhidos, mas certamente também serve de exemplo para o povo de Deus sobre como devemos recepcionar os irmãos reestabelecidos à comunhão. Aquele filho confessou seu pecado a seu pai. Arrependido e humilhado, ele buscou reconciliação e seu pai não rejeitou seu coração contrito e abatido, mas disse aos seus: “Comamos e regozijemos. Porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.” (v.24).

Calvino afirma o que temos visto até aqui: “a disciplina eclesiástica serve de vara paterna para castigar, com clemência e com mansidão do Espírito de Cristo, aos que caíram gravemente”. Que prazer deve ser pra nós ver os frutos desta ação do Espírito no caso daqueles que se arrependeram e se voltaram para o Salvador.

Que Deus nos abençoe para que possamos viver em unidade no meio do corpo, recebendo aqueles que, como nós, foram regenerados e restaurados para glória do nosso Deus.

No último artigo da série veremos o que as Escrituras nos dizem sobre como tratar o pecador que mesmo após todo o processo de disciplina permanece irredutível quanto ao seu pecado.

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About Davi Quaresma

22 anos, solteiro, estuda Ciências Contábeis na Universidade Presbiteriana Mackenzie – RJ é atualmente congrega na Igreja Presbiteriana de Ponta d’Areia em Niterói – RJ, onde seu pai é pastor.

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