Disciplina Eclesiástica – Parte 1

Posted by | novembro 10, 2017 | Reflexão | No Comments

Sabemos que Cristo é o cabeça da igreja (Cl 1:18), pois Ele a comprou com o seu próprio sangue (At 20:28b), e aprouve a Ele, em sua infinita sabedoria, determinar que os líderes da igreja seriam aqueles que têm esta difícil tarefa de aplicar a disciplina eclesiástica (Mt 18:18, At 20:28).

Tragicamente nossas igrejas têm rejeitado uma verdade tão fundamental. A disciplina eclesiástica para Calvino, alguns reformadores e puritanos, além da fiel exposição da Palavra e correta administração dos Sacramentos, é também uma marca distintiva da verdadeira igreja de Cristo. E assim como quando nos afastamos de qualquer verdade revelada nas Escrituras, o resultado não pode dar frutos de vida eterna.

Se teu irmão pecar [contra ti], vai arguí-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano.” Mt 18:15-17

Temos diante de nós um decreto instalado pelo próprio Senhor Jesus que estabelece um padrão a respeito da disciplina que deve ser exercida dentro da igreja com o intuito de combater e extirpar o pecado e o pecador contumaz. O nosso Deus trino, sendo santíssimo, jamais tolerou ou tolerará o pecado no meu de seu povo: ”...não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene.” (Is 1:13). Na teocracia o pecado era julgado e o pecador era expulso do meio do povo de Deus através da pena de morte (Gn 9:5,6; Ex 21:12-17,23; Ex 22:18,20; Lv 20:6,9-16; Dt 13:1-10; Dt 22:13-27; Dt 24:7), nos dias de hoje isto é feito através da disciplina eclesiástica (Mt 18:15-20; 1Co 5:1-13), eliminando o joio do meio do trigo (Mt 7:19; Jo 15:2,6), mas também tratando e restaurando o coração dos predestinados do Senhor, ambos para a glória de Deus.

Ignorar este mandamento é de fato ignorar a voz de Cristo. Matthew Henry disse em seu comentário no livro de Mateus que aplicar a disciplina no meio da igreja é “preservar a pureza e a beleza da igreja de Cristo”. Paulo Anglada certa vez disse que “a falta de disciplina eclesiástica no meio da igreja tende a fazer com que seus membros se acostumem com o pecado e se tornem cada dia mais mundanos e menos santos.” João Calvino vai mais fundo: “Negligenciar o cuidado da disciplina do povo é o princípio certo da mais horrenda devastação da igreja.”.

Um puritano observou que os interesses do povo de Deus são confundidos com os interesses do próprio Deus. Quando sua igreja é ofendida pelo pecado de um irmão, o Senhor Deus toma as dores de sua noiva. Da mesma forma, quando um irmão peca grosseira e insistentemente contra o Senhor devemos tomar as ofensas como feitas a nós diretamente (Sl 69:9).

Talvez ainda não estejamos convencidos do caráter normativo deste mandamento, porém a passagem de 1 Coríntios é ainda mais clara a nós. O apóstolo Paulo, lançando os fundamentos da igreja neotestamentária, escreve à igreja de Corinto advertindo-os por negligenciarem tão importante prescrição: “Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai” (1 Co 5:1). O pecado está latente no meio do povo e Paulo “ausente em pessoa, mas presente em espírito” sentencia “como se estivesse presente… que o autor de tal infâmia seja entregue a Satanás” (v.3-5). Matthew Henry, comentando estes versos, diz que o apóstolo tinha por revelação e dom miraculoso dados pelo Espírito total discernimento da situação. A sentença é clara para o pecador contumaz. O apóstolo ainda nos adverte a não nos associarmos ou sequer sentarmos com estes para comer (v.9). Paulo ainda termina no verso 13: “Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor.

Esta passagem de 1 Coríntios 1-13 deve ser interpretada juntamente com Mateus 18:15-17. Ambas nos mostram como o pecado e o pecador devem ser tratados. Nos mostram que a desobediência e rebeldia aos mandamentos do Senhor não podem ser ignorados, muito pelo contrário.

A Confissão de Fé de Westminster – um dos símbolos de fé da Igreja Presbiteriana do Brasil, composta também pelo Catecismo Maior e Breve Catecismo de Westminster -, mais especificamente em seu capítulo XXX, sistematiza este assunto para nós à luz das Sagradas Escrituras. Convido-os a gastar mais um tempo vendo o que este documento não inspirado, porém bíblico, nos ensina:

Capítulo XXX – Das Censuras Eclesiásticas:
I. O Senhor Jesus, como Rei e Cabeça da sua Igreja, nela instituiu um governo nas mãos dos oficiais dela; governo distinto da magistratura civil. (Is 9:6-7; I Tm 5:17; I Ts 5:12; At 20:17, 28; I Co 12:28.)

II. A esses oficiais estão entregues as chaves do Reino do Céu. Em virtude disso eles têm respectivamente o poder de reter ou remitir pecados; fechar esse reino a impenitentes, tanto pela palavra como pelas censuras; abri-lo aos pecadores penitentes, pelo ministério do Evangelho e pela absolvição das censuras, quando as circunstâncias o exigirem. (Mt 16:19, 18:17-18; Jo 20:21-23; II Co 2:6-8).

III. As censuras eclesiásticas são necessárias para chamar e ganhar para Cristo os irmãos ofensores para impedir que outros pratiquem ofensas semelhantes, para purgar o velho fermento que poderia corromper a massa inteira, para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do Evangelho e para evitar a ira de Deus, a qual com justiça poderia cair sobre a Igreja, se ela permitisse que o pacto divino e os seios dele fossem profanados por ofensores notórios e obstinados. (I Tm 5:20; 1:20; Jd 23).

IV. Para melhor conseguir estes fins, os oficiais da Igreja devem proceder na seguinte ordem, segundo a natureza do crime e demérito da pessoa: repreensão, suspensão do sacramento da Ceia do Senhor e exclusão da Igreja. (Mt 18:17; I Ts 5:12; II Ts 3:6,14-15; I Co 5:4-5;13)

Muito ainda poderia ser dito a respeito deste mandamento. Outros textos poderiam ter sido abordados e os já abordados poderiam ter sido mais profundamente expostos, porém este não é o intuito. O que precisamos perceber, mesmo que visto de maneira um tanto superficial neste post, é que, como igreja, temos a necessidade e a obrigatoriedade de ouvir apenas a voz do Senhor. Precisamos perder de vista a ideia de que a repreensão não está ligada ao amor, pois as Escrituras nos ensinam o contrário (Pv 9:8b), e ter em mente de que este comportamento visa não apenas a glória do Senhor (esta em primeiro lugar), mas a purificação da igreja e a salvação e despertamento de almas.

Nos próximos artigos veremos de maneira prática como devemos tratar os arrependidos e como os rebeldes devem ser vistos pelos santos do Senhor a partir do momento em que são entregues a Satanás.

Que o Senhor nos ensine a amar a repreensão, por amor a Ele e a nossos irmãos.

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About Davi Quaresma

22 anos, solteiro, estuda Ciências Contábeis na Universidade Presbiteriana Mackenzie - RJ é atualmente congrega na Igreja Presbiteriana de Ponta d'Areia em Niterói - RJ, onde seu pai é pastor.

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