Dias como a relva, flores que murcham…

Posted by | agosto 11, 2017 | Leitor Inconformado, Reflexão | One Comment

Uma verdade facilmente aceita entre cristãos e não cristãos é a brevidade da vida humana, mas tão semelhantemente fácil de ser esquecida e ignorada. Todos afirmam saber que tudo passa rapidamente e não há negação explícita da mortalidade. Contudo, muitos desses que eloquentemente dizem tais palavras vivem como se não somente eles, mas igualmente todas as coisas à sua volta fossem eternas. E ainda há aqueles que, ao admitirem a efemeridade da matéria, a usam como pretexto para usufruírem de tudo libertinamente, viverem o aqui e o agora buscando apenas seus prazeres e não olhando nem se importando com o que está além de suas vistas.

Aquele, porém, que é do Senhor deve acautelar-se constantemente do perigo de tais devaneios e lembrar-se diariamente daquilo que está escrito nas Escrituras. A existência humana é descrita semelhante à fumaça (Sl 102:3) e à sombra (Sl 102:11). Em Tiago 4:14 somos questionados: “Que é a vossa vida?”; e lá mesmo somos respondidos: “sois, apenas, como neblina que aparece por um instante e logo se dissipa.

De igual modo, no Salmo 103:15-16 somos exortados acerca disso: “quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce; pois, soprando nela o vento, desaparece, e não conhecerá, daí em diante, o seu lugar.

Esta verdade, que somos como flores que nascem e murcham, que fugimos como a sombra e não permanecemos (Jó 14:2) e que tudo nesta breve vida evapora-se, não sugere que devemos deixar de trabalhar, estudar, formar uma família, nos reter de ter propriedades ou de exercer quaisquer atividades. Não, de modo nenhum! Mas, tampouco devemos viver para tais coisas!

De nada nos serve admitir com os lábios que tudo passa, mas, por diversas vezes, sermos tão tolos ao ponto de, deslumbrados com riquezas, beleza fugaz e com o mundo, tentarmos fazer dessas coisas perpétuas ao nos apegar sobremaneira a elas, semelhante a alguém que inutilmente tenta segurar um monte de areia com suas próprias mãos, a qual desvencilha-se pelos seus dedos e é dissipada ao simples vento.

Nada obstante, que sigamos o sábio conselho de Calvino:

“Com qualquer gênero de tribulação, porém, de que sejamos premidos, é preciso levar sempre em conta este fim: que nos acostumemos ao menosprezo da presente vida e daí sejamos despertados à meditação da vida futura. Pois, uma vez que Deus sabe muito bem quão desmedidamente somos por natureza inclinados a um amor animalizado por este mundo, ele aplica razão apropriadíssima para nos retrair e sacudir nosso torpor, a fim de que não nos apeguemos demasiado tenazmente a esse amor (…)
Portando, afinal, fluímos adequadamente proveito da disciplina da cruz quando aprendemos que esta vida, quando é estimada em si mesma, é inquieta, turbulenta, de inúmeras maneiras miserável, em nenhum aspecto absolutamente feliz; que todas as coisas que são contadas por bênçãos são incertas, inconstantes, fúteis e viciadas de muitos e mesclados males; e disso, ao mesmo tempo, concluímos que aqui nada se deve buscar ou esperar senão luta; que nossos olhos devem estar voltados para o céu, quando pensamos acerca da coroa que nos está reservada.”
(As Institutas, Volume III, capítulo IX)

Tal menosprezo pela vida presente não significa ingratidão, nem muito menos insatisfação para com as benesses do Senhor. Mas revela que o regenerado não deve sobremodo apegar-se a esta vida, lembrando-se que ela nada vale e enchendo-se de desprezo pelo mundo, para que, como Calvino mesmo afirma em outro trecho, ele se aplique, de todo o coração, à meditação sobre a vida futura, que é bem-aventurada e eterna.

E é exatamente isso que a Bíblia nos adverte, no empenho de buscar e pensar nas coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. (Cl 3:1-2)

O cristão sábio deve usufruir de todas as bênçãos que o Senhor o concede, mas de maneira pautada na Palavra de Deus. Que sejamos, portanto, cristãos sábios, que apegam-se ao Senhor pois sabem que Ele sim é eterno, imutável e perfeito. E, assim, viveremos sabiamente, usando a vida presente tão somente para a glória de Deus, tendo sempre em nossas mentes que somos forasteiros e nunca esquecendo de meditar com deleite na vida futura que nos foi reservada. Isso sim, meu caro leitor, que é, de fato, aproveitar a vida!

O cristão que reflete sobre a brevidade da vida é constrangido a reconhecer sua pequenez e fragilidade perante o Criador (Sl 39:4), bem como é exortado a remover sua esperança daquilo que é efêmero e depositá-la Naquele que é eterno, duradouro; Naquele que permanece para sempre! E, finalmente, afirma com as palavras do salmista: “Com efeito, passa o homem como uma sombra; em vão se inquieta; amontoa tesouros e não sabe quem os levará. E eu, Senhor, que espero? Tu és a minha esperança.” (Sl 39:6-7)

Esse texto foi escrito pela leitora Késia Almeida para nossa seção “Leitor Inconformado”.
Késia tem 20 anos, é solteira e estudante de Arquitetura e Urbanismo. Nasceu em Riachão do Jacuípe- BA, mas atualmente mora em Salvador. Ela congrega na Igreja Presbiteriana de Brotas.

 
 
 
 

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One Comment

  • Felipe de Souza disse:

    Uau! Que Deus nos ajude a viver de maneira desapegada as coisas efêmeras da vida e passar a viver para coisas eternas: Cristo.
    O mais interessante de tudo isso é que quando compreendemos a brevidade da vida todas as coisas ganham um novo sentido e aquilo que tanto nos agarrávamos se torna irrelevante comparado a vida futura!!!
    Que Deus continue abençoando estes leitores inconformados! AMÉM!

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