As Reformas e o culto

Posted by | julho 14, 2017 | História, Reflexão | No Comments

As reformas, como tenho insistido, eclodidas no século XVI, estavam interessadas antes de qualquer outra coisa no culto a Deus. O professor Carl Trueman em seu livro “O Imperativo Confessional” mostra que naquele período a quantidade de escritos a respeito da Ceia e dos outros elementos do culto foram maiores do que os assuntos ligados à soteriologia, como a justificação, por exemplo. Não poderia ser diferente. A percepção unânime dos reformadores quanto ao propósito último do homem girava em torno da adoração ao Eterno. A salvação foi considerada como um meio para o louvor a Deus. Nunca como um fim em si mesmo.

A necessidade de vigilância quanto ao culto, por conta da pecaminosidade humana, era outra forte convicção daqueles homens. Se a adoração é central à fé cristã, segue-se que a arrogância do homem em conluio com o pai da mentira fará de tudo para perverter o culto a Deus. A frase de Calvino tornou-se célebre: “o homem é uma fábrica de ídolos”. Se há uma área de particular interesse das forças satânicas contra a igreja, não resta a menor dúvida, que o culto é uma delas.

Com esse entendimento em vista, especialmente reformadores como João Calvino, alardearam o princípio regulador do culto. Na verdade, era uma alegação de que somente a Escritura, e toda a Escritura, define o culto ao Senhor, seja em seu âmbito público, pessoal ou familiar. Não há outro manual melhor capaz de informar como Deus quer ser adorado, senão o livro que entregou aos homens para esse propósito. Além de estar implícita a pecaminosidade humana, os princípios da Palavra sobre a adoração são frutos da pura misericórdia de Deus a fim de impedir o homem de ser fulminado por sua ira devido a um culto torto.

Um culto perfeito é impossível aos homens. Por isso ele é mediado pelo próprio Deus em Cristo tanto no Antigo quanto no Novo Testamento e será aperfeiçoado para sempre nos céus pela Trindade. No entanto, a mediação de Cristo não serve de desculpa para o desmazelo, o desprezo aos princípios bíblicos que regulam a adoração. Tampouco a remoção dos ritos, tipos e símbolos do AT a partir do cumprimento deles na vinda de Cristo conferem liberdade ao homem para fazer o que bem entender em matéria de culto. O mesmo Deus que se indignou quanto à temeridade de Nadabe e Abiú (Lv 10.1-7) é o mesmo que ameaça matar a profetiza Jezabel que perturbava os crentes da igreja de Tiatira com sua idolatria (Ap 2.18-29).

Nesse sentido, a adoração em espírito e em verdade de que fala Cristo à mulher samaritana, não foi entendida na época da Reforma como uma exigência divina para a sinceridade humana, visto que é exatamente isso o que os homens não possuem. Ou a afirmação de Paulo aos Coríntios de que “onde há o Espírito do Senhor aí há liberdade”, como um grito de guerra para a espontaneidade humana, uma espécie de marca do culto verdadeiro. Com efeito, os ditos de Cristo e Paulo foram interpretados como a adoração pelo Espírito, por isso espiritual, verdadeira por ser de acordo com a Palavra. A palavra verdade no evangelho de João são sinônimos de Cristo, da Escritura e do Espírito (Jo 14.6; 17; 16.13; 17.17). Por sua vez, liberdade do Espírito em Paulo é a compreensão mais profunda do evangelho – Palavra de Deus – e o serviço por amor filial que nos é comunicado pela morte de Cristo.

Um dos lemas da Reforma, “igreja reformada sempre se reformando”, é a característica viva em seu culto da igreja genuinamente reformada. Declarar-se reformada não é o bastante. Pode ser o caso de haver um culto deformado, desregulado, inventado sob o rótulo de reformado. Cabe checar na Escritura se em alguma medida a igreja está se afastando do culto prescrito. O lema também não deve ser distorcido para “igreja reformada sempre se renovando”. A Igreja reformada tem o compromisso de reformar-se com o que foi posto por Deus em sua Palavra e não inovar com invencionices humanas.

Que o Senhor, em sua infinita compaixão leve a Igreja a verificar sempre o seu culto, estar atenta e rever seu gosto estético, seus louvores, suas orações à luz da Escritura. O Deus que deseja ser adorado requer que venhamos até Ele e lho peçamos: reforma Senhor o culto, aviva-nos ó Deus, de acordo com tua Palavra. Os reformadores assim fizeram e foram poderosamente abençoados. Andemos em suas veredas.

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About Wellington Costa

Bacharel em Teologia e jornalista formado. Casado e pastor da Igreja Presbiteriana de Brotas em Salvador/Ba.

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